40-Gun

O centro do mundo

Sexta-Feira 19, Dez 2008 · Deixe um comentário

Eu costumava pensar comigo
que o centro
do mundo era o meu umbigo

Mas mudei, e agora acho
que fica
um pouco mais embaixo

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Você me beijou

Quinta-feira 28, Ago 2008 · Deixe um comentário

Você me beijou. Mesmo sabendo meu despreparo; me beijou, sem medo de se arrepender.

De fato, por muito tempo não se arrependeu. Mas isso mudou. Você não sabe exatamente quando começou. No momento lhe falha a memória: lembranças se sobrepõem num redemoinho que nada se assemelha à linha do tempo, amiga dos jornais e funerárias.

A briga; o beijo, o primeiro e todos os outros; palavras, palavras, palavras… Agora que minhas palavras garranchudas e afiadas habitam pulsantemente seu pensamento, você se pergunta. Busca esperançosa palavras de amor que eu tenha declarado. E persiste, pronta pra se dar por satisfeito com um “gosto de você” gaguejado. Reluta à solidão de suas palavras belas, que sempre me rodearam. Impossível que eu jamais tenha retribuído, ou que você não tenha notado.

Uma fagulha de raiva desperta a pior sensação que você irá experimentar até morrer. Uma sensação de injustiça implode o resquício de esperança e faz desmoronar toda a razão por qual você me beijou aquela noite. Me beijou sem medo de se arrepender, e agora se arrepende.

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Explicando por que tomei nojo de você.

Quarta-feira 9, Jul 2008 · Deixe um comentário

Você me entediou. Então eu parei. Quando parei, pensei. E quando eu pensei; bem, verdade seja dita, fiquei com sono. Mas insisti no pensamento. Insisti tão vigorosamente que o sono violento se apossou de mim. E sonhei. Sonhei que você me beijava, contra minha vontade. Por algum motivo, desses motivos bem baratos como num filme, eu estava imobilizada. Mas não havia agonia, não era violento. Nem por isso era agradável. Não, era bem nojento. Desculpe por dizer, mas foi bem nojento mesmo. Não gosto de línguas grandes, só de pensar nelas faço uma careta imaginária e sinto subir um arroto (imaginário). As poucas experiências que tive com mulheres assim, avantajadas, foram desastrosas. Nenhuma, porém, tão incômoda ou nojenta como a do sonho. E foi dessa forma que eu tomei nojo de você. Tudo por causa de um sonho. Tudo porque você me entendiou. E quando fiquei com tédio, parei. Quando parei, pensei. E quando pensei; bem, você já sabe.

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Pretospectiva

Domingo 2, Mar 2008 · Deixe um comentário

Na ausência da cor
A flor perde o encanto
O pranto é sem dor
O amor não é tanto
Que espante o horror

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Desamores

Domingo 2, Mar 2008 · Deixe um comentário

Submeto-me a uma dieta rigorosa de falta de amores. Vivo a vida como para quem tanto faz um dia. Uma noite, um tédio a mais. Rascunho os sonhos que eu queria ter. Rio de mim mesma, menos por humor e mais por falta de bom senso. E quando julgo meus próprios pecados, tenho a obstinação qual me falta em todos outros aspectos da vida. Esta obstinação fugitiva que abandona todos meus planos estagnados. Todos meus amores mal-velados e ora regrados, ora incontidos. Quase sempre faltosos de mim mesma.

Às vezes fico inventando amores. Invento um sentimento que tem a promessa de me preencher, esquecendo que assim me tornarei um saco cheio de mentira. Ainda assim, por vez ou outra, rendo-me. Entrego-me a este desejo de mentirinha. Finjo gostar e finjo não saber que finjo que gosto. E como adoro fisgar um coração e maltratá-lo. Não raro, faço confissões em meio à fantasia, tornando-a ainda mais sedutora.

Mas chega sempre a hora do fim. O momento que traz um nó na garganta que parece filtrar minhas falsas gentilezas e declarações perfeitas. Uma pedra se revira em meu estômago sempre que penso na palavra “fim”, dita em letras breves e cruéis. Somente um pensamento ocupa minha mente, e um medo habita minha alma: do vazio que me espera. Como mesmo para o pior tenho pressa, levanto-me nua ainda ofegante de um sexo mal-feito e cato as roupas. Parto sem me despedir.

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